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A causa do Alzheimer pode ter sido encontrada (na nossa boca)


29/01/2019


O vilão seria a Porphyromonas gingivalis, uma bactéria associada a diversos tipos de periodontites – doenças inflamatórias em tecidos da cavidade bucal, como a gengivite.

As doenças periodontais afetam cerca de um terço da população mundial, e um novo medicamento que bloqueia as principais toxinas da bactéria associada a estas patologias passará por importantes testes clínicos ainda este ano.

A pesquisa, publicada esta quarta-feira na revista científica Science Advances, afirma que este novo medicamento tem o potencial para parar e até reverter o Alzheimer – incluindo ainda a possibilidade de haver uma vacina.

A doença de Alzheimer é um dos maiores mistérios da medicina. Com o aumento da esperança média de vida ao longo das últimas décadas, os casos de demência dispararam, tornando esta condição a quinta maior causa de morte em todo o mundo. Embora o Alzheimer represente cerca de 70% destes casos, a sua causa continua por definir.


A doença é frequentemente associada à acumulação das proteínas tau e beta-amiloide no cérebro. A principal teoria defende que o Alzheimer surge do controlo defeituoso destas duas proteínas. No entanto, pesquisas recentes concluíram que as pessoas podem ter placas amiloides sem se registar demência, colocando assim em xeque esta hipótese.

Várias equipas de investigação científica têm investigado a bactéria Porphyromonas gingivalis. Até o momento, os cientistas descobriram que bactéria invade e inflama as regiões do cérebro afetadas pela doença do Alzheimer.

Outros estudos concluíram também que infeções de gengiva podem piorar os sintomas em cobaias (ratos de laboratório) que foram geneticamente modificados para ter Alzheimer, e que podem causar inflamações no cérebro semelhantes ao Alzheimer, bem como danos neuronais em ratos saudáveis.

Quando a Ciência converge de vários laboratórios independentes, é bastante convincente, disse Casey Lynch, da empresa farmacêutica Cortexyme, sediada na cidade de São Francisco, na Califórnia.

Estudo da farmacêutica Cortexyme

A Cortexyme relatou ter encontrado enzimas tóxicas que a bactéria Porphyromonas gingivalis usa para se alimentar do tecido humano – as chamadas gingipains – em 96% das 54 amostras analisadas de cérebros com Alzheimer. A equipa também identificou a mesma bactéria em todos os três cérebros com Alzheimer cujos DNAs foram examinados.

A Porphyromonas gingivalis foi ainda encontrada no líquido da espinal medula de pessoas vivas com a patologia de Alzheimer – descoberta que pode ajudar no desenvolvimento de um método mais eficaz para diagnosticar a doença.

A Cortexyme já havia desenvolvido moléculas que bloqueiam as enzimas tóxicas gingipains. Testadas em ratos, estas moléculas reduziram as suas infeções, interromperam a produção da proteína amiloide, diminuíram a inflamação cerebral e até recuperaram neurónios que tinham sido danificados.

O antibiótico que mata a bactéria Porphyromonas gingivalis fez a mesma coisa, mas com menos eficácia, e as bactérias rapidamente desenvolveram resistência – o que não ocorreu com os bloqueadores das enzimas tóxicas.

Em outubro, a farmacêutica norte-americana revelou que o melhor dos seus bloqueadores passou nos testes iniciais de segurança em pessoas. Ainda durante este ano, a empresa pretende lançar um teste mais amplo do medicamento.

Por sua vez, uma equipa de cientistas em Melbourne, na Austrália, tem trabalhado no desenvolvimento de uma vacina contra a Porphyromonas gingivalis, tendo os testes clínicos sido iniciados em 2018. Uma vacina contra a periodontite seria um grande avanço da medicina – e, se a vacina também conseguir ajudar a deter o Alzheimer, o impacto poderá ser enorme.

Fonte: ZAP PT



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